Como estudar melhor um instrumento, corrigir vícios e tocar com mais liberdade

Você estuda uma música, repete várias vezes e até consegue tocar algumas partes. Mesmo assim, existe aquele trecho que sempre trava.

Pode ser uma mudança de acordes, uma passagem rápida, uma troca de cordas ou uma parte em que o ritmo se perde. Às vezes, o trecho sai quando você toca devagar e presta atenção em cada detalhe. Mas, quando tenta tocar a música inteira, o problema volta.

Com o tempo, isso cansa.

Você sente que está estudando, mas continua esbarrando nas mesmas dificuldades. Acaba tocando sempre as mesmas coisas e evitando músicas que parecem difíceis demais.

Isso não significa necessariamente falta de talento ou coordenação.

Muitas vezes, existe apenas um pequeno vício atrapalhando a execução. Aqui, “vício” significa um hábito de movimento que foi repetido tantas vezes que passou a acontecer automaticamente, mesmo quando já não ajuda.

A ideia principal é simples: encontre o ponto exato em que a música trava, corrija esse pequeno trecho e depois leve o resultado de volta para a música.


Experimente fazer isto hoje

Escolha uma música de que você gosta, mas que tenha um trecho que nunca fica realmente seguro.

Em vez de começar sempre do início, toque a passagem devagar e tente perceber:

  • Em qual nota ou acorde o problema começa?
  • Algum dedo chega atrasado?
  • A palheta prende numa troca de cordas?
  • O ritmo muda?
  • A mão fica tensa?
  • O erro acontece sempre no mesmo lugar?

Depois, reduza o trecho.

Talvez você não precise praticar o compasso inteiro. Às vezes, duas notas, dois acordes ou uma única troca já contêm o problema.

Toque devagar o suficiente para perceber o que está fazendo. Faça algumas repetições bem executadas e pare quando o vício voltar.

Quando o trecho começar a ficar seguro, acrescente as notas anteriores e seguintes. Depois, aumente a velocidade aos poucos e volte para a música.

Isso costuma dar mais resultado do que repetir tudo desde o começo esperando que o problema desapareça sozinho.


Você também pratica o erro

Repetir é importante. O problema é que a repetição não distingue o certo do errado.

Imagine que você toque um trecho dez vezes e cometa o mesmo erro em oito delas. Durante essas tentativas, você não praticou apenas a música. Também praticou oito vezes o próprio erro.

Por isso, estudar durante mais tempo nem sempre significa aprender mais.

Em vez de perguntar apenas:

Quantas vezes eu repeti?

Também vale perguntar:

O que eu repeti durante essas tentativas?

Poucas repetições feitas com atenção podem valer mais do que muitas repetições feitas sem perceber o que está acontecendo.


Por que o vício volta?

Quando você aprende um jeito novo de tocar, precisa pensar bastante nele.

É necessário prestar atenção na posição da mão, na direção da palheta, na força dos dedos, no ritmo e em outros detalhes.

Enquanto toda a atenção está nas mãos, o trecho pode sair corretamente.

Mas, durante uma música, você também precisa ouvir o som, acompanhar a pulsação, lembrar a próxima parte e pensar na interpretação.

Quando a atenção sai um pouco do movimento, o vício pode voltar.

Isso acontece porque você já consegue fazer do jeito novo, mas ainda não se acostumou completamente com ele. O jeito antigo continua sendo o caminho mais conhecido.

O objetivo do estudo não é obrigar você a pensar em cada dedo para sempre.

É fazer com que o jeito correto também vire hábito.


O jeito errado pode parecer mais natural

Um vício pode parecer confortável simplesmente porque foi repetido durante muito tempo.

Seu corpo já conhece aquela força, aquela posição e aquela sensação.

Quando você tenta tocar de outra maneira, o novo movimento pode parecer estranho, lento ou desconfortável. Você pode até ter a impressão de que piorou.

Isso é normal.

O jeito antigo parece mais fácil porque é conhecido, não necessariamente porque é melhor.

Corrigir um vício exige um período de adaptação. No início, pode ser necessário tocar mais devagar e prestar mais atenção.

Essa dificuldade temporária não significa que você esteja regredindo.

Pode ser justamente o começo de uma melhora importante.


O problema pode estar em apenas duas notas

Uma passagem inteira pode parecer difícil quando o verdadeiro problema está num momento muito pequeno.

Pode ser:

  • a troca entre dois acordes;
  • uma mudança de corda;
  • um dedo que chega atrasado;
  • uma palhetada mal escolhida;
  • uma nota tocada fora do tempo;
  • o momento em que a mão começa a ficar tensa.

Quando você repete a passagem inteira, passa a maior parte do tempo praticando aquilo que já funciona. O ponto difícil aparece poucas vezes e continua sendo feito do mesmo jeito.

O problema não é falta de esforço.

O esforço apenas está sendo gasto no lugar errado.

Ao encontrar o pequeno ponto que trava a música, o estudo fica mais direto. Você trabalha apenas o necessário e depois coloca o trecho de volta no lugar.

O exercício separado não é o objetivo.

Ele é uma ferramenta para fazer a música fluir.


Tocar devagar serve para enxergar melhor

Tocar devagar não é o objetivo final.

É uma maneira de perceber o que acontece nas mãos e no ritmo.

A velocidade de estudo precisa permitir que você:

  • ouça cada nota;
  • perceba o movimento;
  • mantenha o ritmo;
  • toque sem força desnecessária;
  • reconheça quando o vício começa.

Se o mesmo problema continua aparecendo, talvez o trecho ainda esteja rápido ou longo demais.

Nesse caso, diminua um pouco mais.

Quando o movimento estiver seguro, volte a acelerar aos poucos.

A ideia não é tocar tudo lentamente. É usar uma velocidade menor para construir uma execução que continue funcionando quando a música voltar ao andamento normal.


O erro mostra onde estudar

Quando uma passagem não sai, é fácil pensar:

Não tenho coordenação.

Essa música é difícil demais para mim.

Nunca vou conseguir tocar isso.

Mas um erro não precisa ser uma conclusão sobre a sua capacidade.

Ele pode apenas mostrar onde o estudo precisa se concentrar.

Em vez de pensar:

Não consigo tocar essa música.

Experimente perguntar:

Em que momento eu começo a perder o controle?

Essa pergunta transforma uma dificuldade grande e frustrante em algo que pode ser observado e trabalhado.


Você pode estar melhorando antes de tocar mais rápido

A evolução não aparece apenas no metrônomo.

Você também está melhorando quando:

  • percebe o erro mais cedo;
  • consegue parar e recomeçar sozinho;
  • toca com menos tensão;
  • mantém o ritmo por mais tempo;
  • produz um som mais limpo;
  • aprende outra música com menos dificuldade;
  • consegue tocar sem pensar em cada dedo;
  • presta mais atenção na música e menos nas mãos.

Esses sinais mostram que você está ganhando controle.

A velocidade costuma aparecer como consequência disso.


Técnica serve para tocar mais músicas

O objetivo da técnica não é fazer exercícios cada vez mais complicados.

É permitir que você toque mais músicas.

Quando existem muitos vícios ou dificuldades, você acaba tocando sempre as mesmas coisas. Evita algumas músicas, simplifica partes importantes ou desiste quando encontra uma passagem mais difícil.

Com o tempo, tudo pode começar a soar um pouco igual.

Corrigir esses problemas amplia suas possibilidades. Você passa a escolher músicas porque gosta delas, e não apenas porque parecem fáceis o suficiente.

Além disso, quando as mãos trabalham com mais segurança, sua atenção fica livre para pensar no ritmo, no som e na expressão.

A técnica não substitui a música.

Ela ajuda você a brincar mais livremente com o instrumento.


Como trabalho nas aulas

Nas aulas, procuro descobrir o que realmente está impedindo o aluno de tocar uma música com segurança.

O mesmo erro pode ter causas diferentes. Uma pessoa pode usar força demais. Outra pode perder o ritmo. Outra pode fazer um movimento que funciona devagar, mas trava quando a música acelera.

Por isso, não basta mostrar um exercício e pedir que ele seja repetido.

É preciso observar, encontrar o ponto exato da dificuldade, corrigir o vício e colocar o resultado novamente dentro da música.

No começo, posso perceber o problema antes do aluno.

Com o tempo, ele aprende a reconhecer sozinho o que está acontecendo e passa a aproveitar melhor o próprio estudo.

O objetivo não é criar dependência do professor.

É ensinar o aluno a resolver as próprias dificuldades.


Existe uma razão para isso funcionar

Esses princípios são estudados em áreas como aprendizagem motora e memória dos movimentos.

Em termos simples, aquilo que repetimos tende a virar hábito.

Por isso, um bom estudo não é apenas repetir muitas vezes. É perceber o que está sendo repetido, corrigir o que atrapalha e dar tempo para que o novo jeito de tocar se torne natural.

Não existe mágica.

Existe atenção, prática e uma boa orientação sobre onde concentrar o esforço.


Não existe atalho, mas existe um caminho melhor

Aprender um instrumento exige prática.

Nenhum método sério pode prometer que alguém tocará bem sem passar pelo processo de aprendizagem.

Mas o estudo também não precisa ser confuso ou cheio de tentativas sem direção.

É possível evitar repetições inúteis, corrigir vícios antes que eles cresçam e aproveitar melhor o pouco tempo disponível.

Uma música nova não precisa deixar de ser um desafio.

Mas ela pode deixar de parecer impossível.

Quanto melhor você aprende a reconhecer e trabalhar suas dificuldades, mais músicas ficam ao seu alcance.

E, pouco a pouco, você deixa de lutar contra o instrumento e volta a fazer aquilo que queria desde o começo:

tocar, se divertir e fazer música.


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Luciano Menezes é músico, luthier e professor com mais de 35 anos de experiência, especializado em guitarraviolãobaixo e teoria musical. Dá aulas online por videoconferência, presenciais em São Paulo e em domicílio.