Com tanta opção de efeito por aí, é normal ficar perdido na hora de escolher quais pedais realmente fazem diferença numa pedalboard de guitarra. Isso vale para quem está começando agora e para quem, como eu, chegou naquele ponto em que a pedaleira cresceu demais e começou a pedir uma boa enxugada. A ideia deste artigo é ajudar você a cortar excessos, escolher com mais calma, aprender a timbrar e voltar a focar no que importa: tocar guitarra.


Pedais Essenciais

Com o passar dos anos tocando U2 e tentando me adaptar aos mais variados contextos musicais, meu equipamento foi crescendo quase sem eu perceber: racks, pedais, controlador MIDI e por aí vai. Só que, depois de muito ônibus, van, avião e de ver alguns “brinquedos” voltando para casa quebrados na estrada, tudo aquilo começou a dar mais trabalho do que solução. Agora, em férias sabáticas da U2 Alive!, resolvi simplificar e ficar só com o essencial.

Pensando de forma bem prática, gosto de dividir os timbres de guitarra em quatro grandes grupos:

  1. Som limpo, o timbre base que precisa funcionar antes de qualquer pedal entrar em cena.
  2. Som saturado, que pode ir de um overdrive leve até uma distorção mais pesada.
  3. Modulações, para dar movimento, cor e personalidade ao som, sempre com cuidado para não exagerar.
  4. Delay e ambiência, para criar espaço, profundidade e deixar tudo mais interessante.

Quando percebi isso, ficou muito mais fácil escolher meus pedais e montar uma pedaleira que passei a chamar de “coringa”. Ela tem aquilo que eu realmente uso: afinador, compressor, overdrive, distorção, chorus, delay e trêmolo.

Eu já fui daqueles que achavam que precisava ter todos os tipos de distorção na pedaleira, desde um overdrive bem leve até uma distorção insana. Hoje penso diferente. Prefiro trabalhar com duas boas opções e explorar as combinações entre elas.

Nas modulações, dá para viajar bastante: phaser, flanger, chorus, univibe e tantos outros efeitos que criam movimento no som. É muito divertido experimentar esses timbres no estúdio, mas, ao vivo, muitas dessas sutilezas acabam passando batido para a maior parte do público. Por isso, hoje tento preencher o espaço com o que realmente faz diferença no resultado.

O chorus acabou virando minha primeira escolha quando penso em modulação. É versátil e funciona em vários contextos: de sons mais sessentistas, na linha de Hendrix e Beatles, até bases e solos mais pesados, como os do Zakk Wylde. Dependendo da regulagem, também quebra um galho no lugar do phaser. David Gilmour, por exemplo, chegou a trocar o phaser original de “Shine On You Crazy Diamond” por um chorus no ao vivo “Delicate Sound of Thunder”. Com o ajuste certo, ainda dá para chegar perto daquele efeito de rotary speaker. Existe inclusive uma modificação feita pelo Junior Rossetti, da JRMod, que funciona muito bem para isso. Mas esse papo fica para uma próxima matéria.

Como já toquei country e tive uma banda cover de Creedence, acabei me acostumando a usar trêmolo. Até hoje acho um efeito muito bonito, daqueles que aparecem sem precisar chamar tanta atenção. Ele dá movimento ao som, mas de um jeito mais discreto, menos “molhado” que o chorus.

Se você gosta de wah, toca Metallica ou gosta daqueles temas policiais dos anos 70, vale ter um por perto. Eu gosto muito do jeito que o Steve Vai usa wah em Eat & Smile. Vai que um dia aparece uma oportunidade de fazer algo nessa linha? Isso também vale para o Whammy. Talvez você não use sempre, mas quando precisa, faz falta.

Eu sentia falta da época em que tocava com minha banda de som próprio e usava uma pedaleira bem mais simples: compressor, overdrive, pedal de volume e delay. Era pouco, mas resolvia. Voltar para uma pedaleira menor tirou um monte de preocupações da minha cabeça, principalmente na estrada, e ainda me fez prestar mais atenção no que realmente importa: tocar melhor, timbrar melhor e desenvolver um som mais meu.

Quando eu tocava em bandas cover ou fazia substituições, vivia tentando chegar o mais perto possível do som de quem gravou a música original. Hoje penso de outro jeito. Quero soar bem, com consistência, mas sem perder a minha mão no instrumento. Ter menos opções de timbre acabou me obrigando a imitar menos e buscar uma personalidade mais própria.

A partir daqui a ideia não é montar uma lista definitiva, mas sugerir caminhos seguros para quem quer uma pedaleira simples, confiável e fácil de usar. São pedais que conheço bem, que já funcionaram em situações reais e que ajudam a cobrir os principais tipos de timbre sem transformar a pedalboard em um problema.


Sugestões de pedais

Overdrive

O Ibanez Tube Screamer aparece em estilos que vão do country e do blues ao metal. Provavelmente é um dos pedais de drive mais usados em shows e gravações, e não foi por acaso que virou referência para tanta gente.

Outra boa opção é o BOSS SD-1, meu overdrive preferido quando preciso reduzir o set a um único pedal para overdrive e distorção. Ele é mais versátil que o Tube Screamer, mas também um pouco mais agressivo. Por isso, quando uso dois pedais, costumo deixar o TS para ter uma variação maior de ganho.

Distorção

O Proco Rat Whiteface é um clássico e hoje é mais difícil de encontrar. Muito versátil, vai de um overdrive mais comportado, passa pelo high-gain e chega até uma sonoridade próxima de fuzz. É fácil de regular, tem um som nervoso e uma personalidade muito própria. Não tem erro. Diz a lenda que a banda Ratt tem esse nome por causa desse pedal.

Uma opção mais atual é o Super Badass Distortion, da MXR. É minha indicação mais equilibrada para quem deseja qualidade profissional sem programação. Possui ganho amplo e equalização de três bandas, o que facilita sua adaptação a guitarras, amplificadores e ambientes diferentes.

Outra opção é o famoso Boss DS-1. Ele divide opiniões: muita gente ama, muita gente odeia, mas uma coisa é verdade: se continua sendo fabricado desde o fim dos anos 70, alguma coisa ele tem. Para mim, o segredo é não exagerar no tone. Deixo por volta das 9h ou 10h e ele já começa a falar bonito.

Delay

Boss DD-3T

Boss DD-3T, DD-8 ou, se tiver espaço na pedaleira e no orçamento, o DD-200, que entrega uma ótima relação custo-benefício. Se você não usa tap tempo, um DD-3 usado já resolve muito bem. Eu prefiro um modelo com tap tempo, porque consigo ajustar os delays ao andamento das músicas. Para tocar U2, por exemplo, isso faz toda a diferença.

Trêmolo

O Boss TR-2 é daqueles pedais simples, clássicos e que resolvem. Tem uma ótima relação custo-benefício e entrega exatamente o que se espera de um bom trêmolo, sem complicar a vida.

Compressor

Adoro o Boss CS-2, que tenho desde a adolescência, pela transparência do timbre. O Boss CS-3 é a versão atual e resolve muito bem. Também gosto muito do MXR Dynacomp, que tem um som mais “amadeirado” e cheio de personalidade. No fim, acabei ficando com o Dynacomp porque acho que ele combina melhor com country, um estilo em que o compressor realmente faz diferença.

Chorus

MXR Analog Chorus

Alterno entre o Analog Chorus da MXR, o Boss CE-5 Chorus Ensemble, o Boss CH-1 Super Chorus e um Boss CE-2B modificado pela JRMod. O legal é que cada um tem uma personalidade diferente. Alguns soam mais abertos, outros mais discretos, e isso ajuda bastante na hora de escolher o chorus certo para cada situação.


E os simuladores?

Não tenho nada contra pedaleiras e simuladores. Eles são práticos, úteis e, nos melhores modelos, soam muito bem. Ainda assim, os melhores costumam ser caros e nem sempre reproduzem por completo a sensação física e a resposta de um bom amplificador ou pedal real.

O problema aparece quando o primeiro contato com timbre vem de simuladores ou pedaleiras de entrada muito baratos. Eles podem ajudar, mas muitas vezes ensinam mais a escolher sons prontos do que a entender como ganho, equalização, amplificador, alto-falante e dinâmica trabalham juntos.

Por isso, prefiro que o aluno comece com um bom amplificador, mesmo pequeno, e alguns pedais simples. Quando o ouvido entende como um amplificador real reage, fica mais fácil tirar bons sons de qualquer simulador.


Como aprender a timbrar

  1. Comece com o amplificador limpo, sem efeitos, em um volume confortável, mas suficiente para perceber a resposta da guitarra.
  2. Compare os captadores e repare no ataque, nos graves, médios, agudos e na dinâmica.
  3. Acrescente um overdrive e ajuste ganho, tonalidade e volume separadamente para entender o papel de cada controle.
  4. Depois, adicione a distorção e observe quando o excesso de ganho começa a tirar definição das notas.
  5. Deixe modulação e delay para depois, quando o som básico já estiver soando bem.
  6. Anote os ajustes, mas não transforme números em regras: o mesmo equipamento reage de formas diferentes conforme guitarra, caixa, sala e volume.

É difícil timbrar bem no mundo virtual sem conhecer a resposta do mundo real. É como tentar pintar um retrato sem nunca ter visto a pessoa.


Conclusão

Recomendo esses equipamentos porque são musicais, confiáveis, fáceis de entender e vão continuar úteis por muitos anos.

Alguns são clássicos e, talvez porque eu também já esteja ficando um pouco vintage, continuo gostando dessas referências. Muitas delas servem de base para simulações em pedaleiras modernas. Ainda assim, a ideia aqui não é criar uma regra. Se você tiver opções parecidas que funcionem melhor para o seu som, ótimo. O importante é montar uma pedaleira que faça sentido para a sua realidade e permita que você toque mais e se preocupe menos.

Mais importante do que comprar muitos equipamentos, pedais boutique ou presets prontos é aprender a ouvir. Quando você entende como um bom amplificador e alguns pedais respondem à sua mão, fica mais fácil timbrar qualquer equipamento.

O objetivo é construir alguns timbres sólidos, entender como eles funcionam e adaptá-los com musicalidade a cada situação.

Se quiser conversar sobre pedais, pode me mandar uma mensagem no WhatsApp mencionando o assunto Pedais Essenciais.