Entenda a diferença entre buffer e true bypass e por que um pedal com buffer no início e outro no fim da cadeia podem ajudar a preservar seu timbre.
Você liga a guitarra diretamente ao amplificador, ajusta os controles e encontra um ótimo timbre. Depois, coloca um pedal entre os dois, acrescenta mais um cabo e percebe que o som mudou, mesmo com o efeito desligado. Os agudos perderam presença e a guitarra parece menos definida.
Mas o pedal é true bypass. Não deveria preservar o som?
Essa dúvida é comum porque o true bypass costuma ser apresentado como uma garantia de que nada vai interferir no timbre. Na prática, ele retira o circuito do efeito do caminho do sinal, mas os cabos continuam lá. E eles também fazem parte do som da guitarra.
É nesse ponto que entra o buffer.
Por que os cabos podem mudar o timbre da guitarra?
Em uma guitarra com captadores passivos, o timbre depende também da interação entre os captadores, os controles do instrumento, os cabos e a entrada do equipamento seguinte.
Todo cabo tem uma característica elétrica chamada capacitância. Ela depende da construção do cabo e, em um mesmo modelo, aumenta proporcionalmente ao comprimento. Ao interagir com os captadores, essa capacitância modifica a resposta de frequências e pode deixar o som menos brilhante.
Imagine que você estava usando um cabo de cinco metros entre a guitarra e o amplificador. Ao acrescentar um pedal true bypass e outro cabo de cinco metros, passa a ter aproximadamente dez metros de cabo no caminho quando o efeito está desligado.
Com vários pedais, entram nessa conta também os pequenos cabos que ligam um ao outro. Individualmente, parecem pouco importantes. Somados, podem fazer diferença.
Isso não significa que um som mais fechado seja necessariamente ruim. Você pode até preferi-lo. O problema aparece quando essa mudança acontece sem que você entenda a causa ou dificulta o equilíbrio entre os timbres.
O que é um buffer e qual é a sua função?
O buffer é um circuito que recebe o sinal da guitarra e o entrega em condições mais adequadas para atravessar os cabos e alimentar os equipamentos seguintes.
Para entender como isso acontece, vale conhecer dois termos: alta impedância de entrada e baixa impedância de saída.
A alta impedância de entrada permite que o buffer receba o sinal sem carregar excessivamente os captadores, ajudando a preservar sua resposta. A baixa impedância de saída permite que o sinal siga adiante com muito menos influência da capacitância dos cabos.
Um buffer bem projetado faz isso procurando manter o volume e o equilíbrio de frequências do sinal recebido. Sua função principal não é aumentar o volume, acrescentar agudos ou produzir distorção.
Quando a guitarra parece ganhar brilho com um buffer, geralmente estamos ouvindo a redução de uma perda que acontecia na ligação anterior.
O buffer ajuda a preservar o sinal a partir do ponto em que está instalado. Ele não recupera os agudos que já foram atenuados antes de sua entrada.
True bypass e buffered bypass: qual é a diferença?
Em um pedal true bypass, quando o efeito está desligado, o sinal passa por um caminho que contorna o circuito do efeito. Isso evita a influência desse circuito, mas mantém os cabos conectados à guitarra.
Já em um pedal com buffered bypass, o efeito é retirado do caminho quando você o desliga, mas o sinal continua passando por um circuito de buffer.
Portanto, desligar o efeito não significa necessariamente retirar todos os circuitos do caminho do áudio. Em um pedal com buffered bypass, o buffer continua trabalhando enquanto o pedal está alimentado, mesmo que você não esteja usando o efeito.
As duas soluções têm utilidade. O true bypass não é um certificado de qualidade sonora, assim como a presença de um buffer não garante, por si só, um resultado melhor. É preciso considerar o conjunto.
Por que colocar um buffer no início da cadeia?
O buffer na entrada da pedaleira reduz a influência dos cabos e equipamentos seguintes sobre os captadores.
Sem ele, quando todos os pedais são true bypass e estão desligados, a guitarra fica conectada ao comprimento total de cabos até o amplificador. Com o buffer no início, a interação mais significativa com a capacitância dos cabos fica concentrada no trecho entre a guitarra e a entrada do buffer.
Depois desse ponto, o sinal segue com baixa impedância, ficando menos sujeito à perda de agudos provocada pelos cabos seguintes.
Isso também ajuda a manter uma condição mais consistente para a guitarra quando você liga e desliga diferentes efeitos.
Um afinador com buffered bypass pode cumprir essa função. Não é necessário comprar um pedal dedicado exclusivamente a buffer se algum equipamento que você já utiliza na entrada realiza esse trabalho.
O cabo entre a guitarra e o primeiro buffer, porém, continua influenciando o timbre. Por isso, vale escolher seu comprimento e sua capacitância com atenção.
Por que colocar outro buffer no fim da cadeia?
O buffer na saída tem uma responsabilidade diferente: entregar o sinal que sai da pedaleira com baixa impedância para percorrer o cabo até o amplificador.
O primeiro buffer estabelece uma condição adequada para receber a guitarra. Ao longo da cadeia, porém, o sinal passa por outros circuitos, e a impedância de saída pode depender do último efeito ativo ou de dispositivos passivos que estejam no caminho.
Um buffer no final oferece uma saída mais previsível para o conjunto. Isso é especialmente útil quando o amplificador fica distante e você precisa usar um cabo longo.
Um delay ou reverb com buffered bypass, colocado por último, pode cumprir essa função mesmo com o efeito desligado. Novamente, não é obrigatório acrescentar um pedal exclusivo para isso.
A ideia é simples: o buffer de entrada recebe a guitarra; o buffer de saída alimenta o cabo até o amplificador.
É necessário ter dois buffers?
Nem sempre.
Se o buffer inicial já consegue alimentar todo o caminho seguinte e os demais pedais estão em true bypass, ele pode ser suficiente, inclusive para o cabo que vai ao amplificador.
Da mesma forma, se o último pedal já oferece uma saída de baixa impedância tanto com o efeito ligado quanto em bypass, outro buffer depois dele pode ser redundante.
A vantagem de ter um pedal com buffer no início e outro no fim é estabelecer boas condições nas duas extremidades da pedaleira, especialmente em montagens maiores ou com diferentes combinações de efeitos.
O importante é verificar se essas funções já estão sendo cumpridas pelos seus equipamentos. Em pedais que permitem escolher entre true bypass e buffered bypass, confira também qual modo está selecionado.
A exceção: Fuzz Face e outros circuitos sensíveis a buffers
Alguns efeitos dependem da interação direta com os captadores para apresentar sua resposta característica.
O Fuzz Face clássico é um exemplo. Colocar um buffer antes dele pode alterar o timbre e a maneira como a distorção responde ao controle de volume da guitarra.
Nesses casos, costuma ser melhor ligar a guitarra ao fuzz e colocar o primeiro buffer depois dele. Alguns outros fuzzes e treble boosters também merecem essa atenção.
Essa exceção não vale para todo pedal de fuzz. O comportamento depende do circuito, por isso é importante consultar a orientação do fabricante e experimentar.
Como saber se sua pedaleira precisa de buffer?
Comece com uma comparação simples: ligue a guitarra diretamente ao amplificador usando o cabo habitual e escute o timbre. Depois, conecte a pedaleira completa, com todos os efeitos em bypass, mantendo os mesmos ajustes da guitarra e do amplificador.
Observe principalmente o brilho, a definição e o equilíbrio do som.
Se houver uma diferença indesejada, experimente um pedal com buffered bypass no início da cadeia, respeitando as exceções dos fuzzes. Depois, teste também um na saída.
Faça a comparação com os cabos que você realmente utiliza. Além de ouvir tudo em bypass, teste suas combinações habituais de efeitos: uma configuração pode funcionar bem com todos desligados e se comportar de outra maneira quando determinados pedais entram no caminho.
Preservar o timbre começa por entender o caminho do sinal
O buffer é uma ferramenta para controlar a interação entre a guitarra, os pedais e os cabos.
Na entrada, ele reduz a influência do restante da cadeia sobre os captadores. Na saída, ajuda a entregar o sinal ao amplificador com menor influência do cabo final. Essas duas funções explicam por que pedais com buffer nas extremidades são uma solução útil em muitas montagens.
Antes de trocar um pedal porque ele parece deixar o som apagado ou dificultar o equilíbrio dos timbres, examine o caminho completo. Às vezes, a solução está na forma como os equipamentos estão conectados.
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